Crônica de hoje: A panela que insiste em ferver

Crônica de hoje: A panela que insiste em ferver

crônica da semana

A panela que insiste em ferver

Desligar o fogo não faz a panela parar.
Quem cozinha conhece esse pequeno atraso.
A chama desaparece no mesmo instante em que giramos o botão. A água não. Mesmo
sem chama, ela continua agitada por algum tempo. Algumas bolhas ainda sobem e
estouram na superfície. O vapor sobe mais devagar.
O fogo já não está ali, mas a água ainda não recebeu a notícia.
Nunca achei isso estranho.
Estranho sempre foi esperar que as pessoas esfriassem no mesmo instante em que
alguma coisa termina.
Pode ser o fim de um relacionamento, uma demissão ou aquela amizade que, aos
poucos, deixa de procurar a gente.
Ainda assim, respondemos mensagens, lavamos a louça e compramos pão. Há coisas
que continuam acontecendo enquanto tentamos parecer presentes.
Nem sempre o que ficou faz barulho.
Às vezes aparece quando uma faca encontra a tábua pela primeira vez no dia. Outras, no
cheiro do alho começando a dourar.
Às vezes, a lembrança chega pelo cheiro, antes que a gente consiga dar um nome a ela.
Não é necessariamente apego.
Algumas coisas apenas levam mais tempo para esfriar.
Na cozinha, aprendemos a não tocar uma panela logo depois do fogo.
Não tocamos porque sabemos que o metal ainda está quente, mesmo quando já não há
chama.
Talvez seja por isso que algumas pessoas continuem aparecendo em nossos dias muito
depois da despedida. Algumas despedidas terminam na porta. Outras continuam
acontecendo durante semanas.
Às vezes, uma frase antiga reaparece no meio da tarde e muda o jeito como
atravessamos o resto do dia.
Nem todo calor, porém, é lembrado com carinho.
Há coisas que continuam doendo justamente porque nunca foram ditas.
Nunca reparei em quanto tempo uma panela leva para deixar de guardar o calor.
Só percebemos depois.
Num momento qualquer, encostamos a mão na borda e ela já não devolve nada.
Talvez a gente também só perceba depois, quando uma lembrança já não produz o
mesmo efeito.
Às vezes esquecemos.
Outras vezes lembramos de tudo, mas aquilo já não encontra em nós o mesmo lugar.
Mesmo na cozinha, há momentos em que só resta esperar.
A panela esfria no tempo dela.
Talvez o corpo também precise de um tempo em que ninguém lhe peça para estar pronto.
Até que, em algum momento, voltamos a usar a panela sem pensar no fogo anterior.

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